Publicado por Elizabeth Misciasci em 15/12/2009 15:25:00

O Povo Humilde e trabalhador de Brasília
Por: Vânia Moreira Diniz
Não vou falar de ética ou dos tristes debates que arrepiam os brasileiros. Isso me faz lembrar quando cheguei à Brasília tão jovem, menina ainda e as lágrimas desciam de saudade do Rio de Janeiro e de tudo que constituía a minha vida.
Lembro-me que chorava silenciosamente de madrugada porque como eu explicava, não ouvia barulho de carros, busina, gente falando ou gritando em baixo e tudo que o carioca está acostumado a ouvir e já é como um embalo para seu sono.
Aprendi a admirar a beleza da capital e me surpreender com seu povo trabalhador, que levanta bem cedo, leva os filhos ao colégio e começa sua labuta. Ou aqueles que morando nas periferias das cidades acordam de madrugada para que chegue na hora certa ao trabalho.
A “Ilha da Fantasia” não pertence absolutamente ao povo comum, que luta com dificuldades imensas, não possui carro e enfrenta uma das coisas mais difíceis na capital que é o ônibus que além de ser caro não circula por todos os lugares como as outras cidades.
Talvez os habitantes de Brasília que não são a elite sejam as pessoas mais sofridas de todo o Brasil e é uma ironia quando as comparam com os “nobres” que detém o poder econômico.
Sou carioca fascinada pela minha terra que me criou, batizada pelas águas do mar de Copacabana e Ipanema, enfeitiçada pelas ruas que eu habitei, pelos morros que representam o povo sofrido do meu Rio de Janeiro.
Conheço o Brasil inteiro, começando de minha cidade natal passando por Minas, sua capital e o interior, São Paulo, com todo o seu progresso, nordeste e sul do nosso país onde andei com orgulho, até a Ilha do Bananal onde convivi maravilhada com os índios, mas Brasília é a reunião de todos os conterrâneos que vieram para cá especificamente trabalhar e construir essa belíssima cidade. Um povo que encontrei humilde, sofrido, mas glorioso por estar contribuindo com suas mãos para o desenvolvimento da capital.
Defendo, portanto o trabalhador brasiliense separando-os como o joio do trigo dos privilegiados que em muitos casos faltam à ética e à responsabilidade. Claro, existem exceções sim, mas, lembrem que se alguém sofre nesse país são justamente os brasilienses. A maior parte até fome passa, muitas vezes sem emprego e condições absolutamente nenhuma de ser atendido dignamente no serviço de saúde.
A linda Brasília, cercada do verde da natureza privilegiada, com árvores frondosas e flores que se espalham coloridas e maravilhosas, o lago impressionante em sua vastidão e o horizonte mais baixo e visível que já conheci, o céu azul tão perto que em viagens de carro dá a impressão de se encontrar com a terra, espetáculo maravilhoso, esse paraíso de beleza é a terra abundante de fascínio e tristeza, excepcional ilha de fantasia apenas para os privilegiados. O povo trabalha, digno e altaneiro e procura contribuir com fé e vigor para o engrandecimento do Brasil.
Aqui, mesmo a classe média, está preocupada em melhorar, lutar para que seus filhos cresçam aprendendo a respeitar os valores inerentes, trabalhando de dia, estudando à noite e ouvindo e presenciando as horripilantes verdades que circundam a capital, sem verdadeiras perspectivas porque onde não há altruísmo não poderá haver felicidade.
O trabalhador brasiliense está persistindo todos os dias, resistindo,chorando, trabalhando e procurando discernir em meio a tanta dor, uma luz que parece se apagar a cada dia que passa. Está sozinho nesse turbilhão, distante, esquecido e obrigado a presenciar além de tudo a violência das ruas, o descaso, a indiferença e incompreensão de decisões incompreensíveis.
Vânia Moreira Diniz
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